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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

BRUXARIA TRADICIONAL E O CULTO AOS DEMÔNIOS

A Bruxaria Tradicional esta ligada ao culto de demônios? A primeira questão a ser desenvolvida esta no entendimento dos procedimentos de “demonização”, para uma sociedade influenciada pela religiosidade cristã, qualquer culto espírita já estaria conceituado como culto ao demônio.

Para entendermos melhor esta questão devemos analisar que a humanidade, como um todo, necessita para seu julgo comparar atributos que lhe são comuns, portanto alguma entidade de chifres perante nossa sociedade moderna daria a visão de algo inferior ou malévolo, entretanto para os estudiosos das crenças pagãs, estes atributos poderiam estar vinculados às questões simbólicas de caça, sexo ou força da natureza e não simplesmente uma qualificação, de seres ligados ao diabo ou ser o próprio, dada em específico aos dogmas cristãos.
Como encontramos na literatura folclórica, muitos seres da natureza eram representantes ou mensageiros de algum fenômeno climático, temos no folclore asturiano a figura do Nuberu, por exemplo, que são seres ligados à neblina, a chuva e a neve, portanto ao mesmo tempo em que as pessoas cultuavam a estes seres fazendo-lhes oferendas, existia o medo de que estas entidades se zangassem e trouxessem os problemas climáticos e atrapalhassem nas plantações, sendo assim com a vinda posterior das crenças cristãs estas entidades foram demonizadas, ou seja, o que era algo comum às crenças pagãs se tornou através de uma visão religiosa diferente, um meio de caracterizar a tudo que a humanidade não entendia ou dominava como demônios, e assim, encontramos na promessa católica um protetor benevolente e salvador, promovendo o desenvolvimento do dualismo, “bem versus mal”, espiritualidade que não era comum nas crenças pré-cristãs.

E qual o nosso objetivo como tradicionalistas? Eis uma questão que sempre devemos ter em mente! Acreditamos na preservação de culto, de folclore, de costumes retirando à influências cristãs, e assim dar uma perspectiva que de longe seria algo ligado a demonologia tão ministrada por grupos cristãos e anti-cristãos, bem como retirar os disfarces do sincretismo religioso tão bem defendido por linhas modernas ecléticas.




Não é atributo originário da Bruxaria Tradicional o aprendizado da demonologia, tal como não é da astrologia ou tarologia, estas são práticas mágicas que estão abertas a qualquer interessado em magia. Estamos cientes da mistura existente entre crenças cristãs e pagãs que foram acontecendo a partir da Idade Média, contudo a visão da Bruxaria Tradicional foca os seus "diversos ofícios/ trabalhos" no período antigo, anterior as influências cristãs, tal como trata essas crenças como religião* (palavra que também qualifica como culto a divindades).

Para a grande maioria dos bruxos tradicionais, dedicados e focados exclusivamente nesse caminho, o contato com o mundo espiritual é natural, é fluídico, independente se as divindades, se os seres espirituais são humanóides ou zoomórficos, se são bonitos aos nossos olhos, pois devemos ir além das aparências, ir de encontro ao caminho sábio.

Portanto bruxos não acreditam em demônios, acreditam na diversidade espiritual, entretanto devemos considerar que crença é diferente de culto, e nós tradicionalistas cultuamos o folclore raiz de nossa terra, de nosso casa.  


Cordialmente,
Conselho de Bruxaria Tradicional no Brasil

quarta-feira, 18 de maio de 2011

BRUXARIA TRADICIONAL - O nascimento da bruxaria (Carlo Ginzburg)

O diabo é intrínseco ao cristianismo, sua existência é incontestável para a época estudada. O historiador Carlo Ginzburg retoma a questão da continuidade, mostrando como prática e crença folclórica permaneceram encobertas, através de séculos, por um complexo cultural de componentes muito diversos. E descobre, em 1570, um verdadeiro culto de fertilidade – os benandanti –que se proclamavam defensores das colheitas e da fertilidade dos campos e travavam batalhas noturnas contra os strogoni – os bruxos.

Ginzburg mostra que esse culto foi transformado pela Inquisição em bruxaria tradicional; o ritual propiciatório vira Sabbat diabólico. Para Ginzburg a bruxaria era um produto de elementos das crenças e práticas folclóricas.
1437, a reunião das bruxas é levada a cabo em uma noite de sábado, liga-se então ao judaísmo completamente.


Carlo Ginzburg propõe a formação do estereotipo da Sabbat através de fusão de duas imagens distintas: uma é a da cultura erudita (juízes, inquisidores e demonólogos) que ligam ao Diabo; a segunda esta na cultura folclórica, homens e mulheres que entram em êxtase e adentram o mundo dos mortos para buscar a prosperidade para a coletividade. Esta segunda imagem é muito mais antiga que a primeira.


Robert Muchembled diz que o Sabbat é estranho aos atores camponeses destes dramas e que o satanismo é um produto direto da demonologia e da prática judiciária decorrente. E critica Ginzburg e todos que acreditam na existência do Sabbat e práticas orgiásticas imaginárias ou da existência de um ritual:


“reduzir as assembléias noturnas a certas estruturas conduziu Carlo Ginzburg a descrever a existência de práticas humanas universais, das quais faz parte o culto dos mortos, sem discernir o essencial: suas formas culturais específicas a um dado grupo em uma determinada época”


Realidade mítica ou eclesiástica, a questão demanda ainda muitas investigações que confirmem. Buscar a origem comum de uma tradição histórica contínua que se estende a todos os fatos englobados sob o nome de bruxaria, desde o período pré-histórico ou da Antiguidade Oriental é arriscar-se a deformações da realidade do período estudado. Os símbolos atravessam épocas, mas suas significações pelo imaginário da sociedade experimentam variações oriundas da própria originalidade e singularidade presente em cada cultura, em cada coletividade.


Não pretendemos negar o papel decisivo desempenhado pelos cultos acertas divindades do paganismo clássico na formação e no desenvolvimento da mentalidade mágica medieval.


***
Jean Vineti, um inquisidor em Carcassone, 1450, dizia que cavalgadas noturnas em companhia de Diana nada tinha a ver com os modernos heréticos. Nicholas Jacquerius, inquisidor na Bohemia em 1458, admite que as ilusões proclamadas pelo Canon Episcopi não existem de fato; nega que os antigos seguidores de Diana sejam os mesmos heréticos modernos a que se refere o cânone.


Em 1409, em Genebra, parece formar o estereotipo diabólico que tomaram corpo nos tratados dos inquisidores, quando alguns judeus e cristãos são acusados de praticarem, juntos, rituais contrários às duas crenças. É a nova forma de malefício que surge, a homenagem ao Diabo e a profanação dos sacramentos cristãos.


As primeiras notícias desse culto – servir ao Diabo – vêm por volta de 1428, na suíça, onde se constituem os primeiros registros de perseguição sistemática à bruxaria. Quando as comunidades aldeãs decidem, influenciados pelo bispo, que todos os indivíduos acusados de malefício por mais de duas pessoas vai à fogueira, - e é nas confissões arrancadas sob tortura que a imagem da bruxa voadora que nutri, mais tarde, a grande caça às bruxas: a imagem do Sabbat.


A partir de então se constroem teorias para reconstituição da “seita das bruxas” e seu modus operandi.


Começa uma intenção de ligar atividades consideradas heréticas e infiéis à bruxaria. É o caso do termo “sinagoga” (assembléia dos judeus) que nos registros dos tribunais designam a assembléia bruxesca. E aparece a primeira referencia ao termo Sabbat. Em


A bruxaria se dá mais ao meio rural, pelas antigas tradições e ausência da tutela ortodoxa; aumentando, assim, o domínio do “mal” e as ações dos “agentes de satã” – bruxaria.


O dualismo Deus-Demônio faz parte do próprio universo medieval, onde a sociedade se divide sempre em duas facções em constante peleja em todas as atividades cotidianas e em cada uma delas. Deste modo, a bruxaria encontra-se em franca rebelião contra a ortodoxia, o que a diferencia e afasta da feitiçaria e da magia, apesar de estas práticas viverem lado a lado.


Os malefícios são atividades secundárias na questão da bruxaria, um produto de uma falsa religião. É a noção de que bruxa recebe seus poderes de um pacto deliberado com o Diabo, que a distingue das outras atividades mágicas. Dessa maneira, o caráter essencial da bruxaria não é o dano que ela causa às outras pessoas, mas o seu caráter herético, o culto ao Demônio, que a transforma no maior dos pecados, pois, aflige toda a cristandade, que se vê ameaçada da impossibilidade de conclusão da obra do redentor e tenta purificar-se, purgando os pecadores através do fogo. Tendo lesado ou não a outras pessoas, a bruxa merece morrer, por sua traição para com Deus.


À vista do exposto, pode-se dizer que a bruxaria exerce no nível de um imaginário coletivo, uma função compensatória, influindo decisivamente no meio social pela institucionalização das reações de medo e pânico coletivo. No nível da “realidade” da bruxaria, daqueles que acreditam em bruxas, esta é um “ritual coletivo”, pois vivemos em um mundo onde os desejos adquirem vida própria, corporificam-se , transpondo a barreira do imaginário, para assumirem o seu devido lugar no cotidiano dos homens.


É nesta perspectiva que as acusações contra bruxas e bruxos de arruinar os indivíduos, estragar as colheitas e matar os animais ganham toda a sua importância. Mais do que a resposta emocional a um abuso de poder, as práticas mágicas preenchem as necessidades do imaginário da coletividade, a bruxaria e a feitiçaria, se por ao lado contradizem o estatuto social estabelecido, ao nível psicológico-coletivo também constituem um complemento necessário que fornece as possibilidades de intervenção e superação da realidade indesejada. O real e o fantástico não se solucionam por mútua exclusão, mas por uma relação ambivalente e integrada, que empresta a razão de ser desta totalidade coerente e funcional: o universo mental da coletividade. Aqui a imaginação conduz à realidade existente e à realidade imaginada; à realidade sofrida e à realidade desejada, até um ponto de intersecção – o cotidiano dos homens – onde toda a distinção torna-se equívoca e polivalente.




citação.
1-Dianus ou Diana era a deusa da lua e da caça, filha de Júpiter e de Latona, e irmã Gêmea de Apolo. Era muito ciosa de sua virgindade. Na mais famosa de suas aventuras, transformou em um cervo a caçador Acteão, que a viu nua durante o banho.


Fonte: NOGUEIRA, Carlos R. O nascimento da bruxaria: da identificação do inimigo à diabolização de seus agentes. 1ª ed. São Paulo. Imaginário, 1995.